Estava sozinho. Então sentei-me no relvado verde que tenho no exterior de minha casa. Espreguicei bruscamente o meu corpo e deitei-me numa posição confortável. Ergui os meus braços, no alto da minha cabeça, unindo as mãos e colocando-as debaixo da minha nuca. Depois dobrei cuidadosamente as minhas cansadas pernas e coloquei-as de forma a se segurarem uma à outra. Estava pronto para uma cesta. Vinha esta com o propósito de não pensar no meu bom ou mau dia que tinha tido. Não sabia distinguir o bom do mau, pois a cada dia que passava da minha vida tudo se mostrava relativo. «Hoje tive um dia bom, mas ontem também foi bom! O dia não foi o mesmo, acontecerem coisas diferentes» pensava eu. Depois parava o meu raciocínio do “BOM” e lembrava-me «tive um dia mau, mas anteontem o dia foi mau, mas não foi tão mau como o do outro dia». Era assim que começava a conversa para mim mesmo, mas acabava sempre confuso. Então, arranjei uma actividade de “passar pelas brasas” e, deste modo ter a falsa sensação de não pensar. Sei que não é real, mas enquanto isso não ouço o meu poderoso músculo – o coração – a bater, a sentir.
Assim aconteceu! Adormeci, e sem dar conta disso já estava naquele mundo misterioso que nós nunca sabemos como vai ser – o sonho. Nem sempre tem esse nome, porque quando não gostamos: quando nos faz acordar de repente, em sobressalto, chamamos-lhe pesadelo.
Desta vez estava a ter um sonho. Mas desta vez os meus olhos viam-me. Significa isto que, nós costumamos ser uma personagem que só pode ver o mundo a volta. Desta vez não. Eu era o universo! Eu estava no sonho e via-me lá, naquele maravilhoso mundo. Era a personagem principal! Estava sorridente! A felicidade era a característica mais visível na minha personagem. Andava pelos campos a colher flores. Ouvia os animais, brincava com alguns deles. Que mundo deslumbrante que me ensinava coisas incríveis. Lá podia subir as árvores como um chimpanzé e olhar de cima delas. Podia voar como uma águia e ver o mundo de cima. Podia ser um leopardo e correr muito rápido. Era livre! Mas, de repente surgiu um barulho. Estranho era tal barulho, tão intenso, num país perfeito, tão silencioso. Não imaginara eu que o barulho vinha do mundo que nós todos conhecemos – o mundo real. Era a campainha. «Maldita campainha» gritei eu para mim mesmo. Fui ao portão. Já via ao longe um ser que nunca tinha visto. Conforme me aproximei, fixava a cara e apercebia-me que talvez já tivesse visto aquele rosto em algum lado. Mas quando olhei para o corpo, não associei a uma pessoa tão forte. Quando a ela me viu esboçou um sorriso e disse:
– Olá! Ainda te lembras de mim?
Não podia ver o meu rosto, mas imaginava ser de parvoíce. Eu não sabia quem era, nem se quer se já a tinha visto em algum lado. No entanto, aprecei-me na resposta:
– Olá! Na verdade não me consigo lembrar de ti. Sei que conheço a tua cara de algum lado, mas não me lembro bem!
Ela notou o meu desconforto nas palavras que eu disse, e então alargou o sorriso de modo a pôr-me mais a vontade.
– Já nos conhecemos! Já nos encontramos várias vezes, mas desta vez venho mais forte! – Disse ela sempre sorridente.
– Eu costumo ter boa memória fotográfica, mas em nomes sou muito fraquinho! – Informei eu.
– Sou a Saudade!
– A Maria Dolores da Saudade dos Santos? – Exclamei eu confuso.
– Não, tonto, sou mesmo só a Saudade! – Afirmou, rindo-se baixinho.
– Isso é possível? A Saudade não é humana! Como podes estar aqui em frente a mim?
– Eu sou humana, sim! E serei, agora, a tua melhor amiga. Hoje vim visitar-te! – Exclamou ela, não parando de mostrar a sua brilhante dentadura.
Eu deixei-me ficar. Aquele momento parecia irreal. Fiquei alguns segundos sem saber o que dizer, sem saber que fazer. Mas pensei: «Se é minha amiga, vou convida-la para entrar! Ela veio visitar-me. Eu até estava sozinho e tudo!». Exprimi um sorriso com ela e convidei-a para entrar.
Subimos as escadas em curva. Abri a grande porta de madeira da frente de minha casa e dirigimo-nos até á sala. Estiquei o braço e em seguida a mão apontando para o sofá de modo a dar a entender que estava a convidá-la para se sentar. Ela delicadamente pediu licença e sentou-se. Eu fiz o mesmo e começamos a conversar.
*
– Acorda, acorda!
Estavam a berrar alto nos meus ouvidos. Isso já era demasiado frustrante, mas para além disso, a abanar-me bruscamente o corpo, segurando-me pelos ombros.
– Para onde foi ela? – Perguntei eu, ensonado e, inevitavelmente, confuso.
– Ela quem? – Exclamou o António.
– Que estás aqui a fazer? Eu estava com a Saudade! Estava sou eu e ela! – Resmunguei.
– A Maria Dolores da Saudade dos Santos? Que veio ela cá fazer? – Admirou-se ele.
– Não, a Saudade! Veio visitar-me. Deu ar de sua graça. Sorriu para mim. Entrou comigo até a sala e tivemos a conversar. Deu-me a mão e esteve comigo o dia todo!
Neste instante, surgiu, de repente, uma dor no meu peito. Já não ouvi mais o António. Para dizer a verdade já nem o via. A dor era tão grande, que tinha que serrar os dentes e apertar o peito com as minhas mãos de modo a suavizá-la. Mas não adiantava. Era grande a inexplicável dor e chorei! Foi neste instante que ouvi uma voz. Logo notei que era a voz da Saudade. «Não estive contigo só um dia inteiro! Vou estar contigo para sempre». As lágrimas continuavam a formar-se nos meus olhos e a escorrer pela minha face. Erguia o braço em frente aos olhos e com toda a força esfregava os olhos a limpar as lágrimas. E a dor? Essa não passava! O aperto no coração que a Saudade me provocou, continuava, continuava… e continua.
«Terça-feira, 8 de Junho de 2010:
Hoje, Diário, revelo-te um segredo. Hoje a Saudade veio visitar-me. Prometeu ser minha amiga. Quer andar comigo para todo o lado, sempre dentro de mim, dentro do meu coração. Jurou ficar comigo para sempre.
Eu não posso negá-la. Tive grandes momentos e tenho a necessidade de recordá-los. A Saudade mostra-me o quão importante foram todos esses momentos e o quanto marcaram a minha vida.
Agora não vivo sozinho! Tenho dentro de mim a Saudade. Tenho dentro do meu coração mais que a Saudade, mais que as Recordações, tenho todos os amigos. Todos têm o seu espaço.
Assim, da próxima vez que tocar a campainha, vou a correr abrir, pode ser mais alguém importante!»