«Que tempo espera por nós? Já não sabemos contar o 12 traços
que dividem o nosso relógio. É um mundo aparte daquele que queremos viver. Se
tudo o que eu não soubesse fosse ler as horas no relógio não seria muito
difícil enfrentar as barreiras que se atravessam. Se não as saltasse as duas
horas da tarde, saltarias mais tarde, mas sempre as conseguiria transpor Agora
assim não. Não tenho força nas pernas para tal tamanho. Não tenho destreza nos
braços para tal impulso. Nem inteligência para descobrir uma maneira mais fácil
de saltar o muro. Então limito-me a ter “nada”. “Nada” é uma palavra á qual não
podemos designar uma coisa. Nós nunca temos “nada”, porque se não, não poderíamos escrever, pensar, comer, sentir, chorar. Temos “tudo”, embora não tendo “nada”.
Melhor dizendo, temos “tudo” embora, para nós, esse tudo seja “nada”, logo
temos “nada”. Tudo anda à volta do “tudo” ou “nada”, mas para isso precisamos
de saber o que é “tudo” e o que é “nada”. Agora questiono-me: Alguém sabe o que
é “tudo” e o que é “nada”? Hum, eu não sei se sei, mas sei que “tudo”, não
tenho, nem nunca vou ter. Mas sei que não quero ter “nada”. Para alguns, “tudo”
será aquilo que nos faz viver, aquilo que nos faz feliz. A comida, o oxigénio,
a água fazem-nos sobreviver. Deste modo, já temos um pouco do “tudo”, então já
não temos “nada”, mas sim um “quase tudo”. Descobrimos, então um novo estado: o
“quase tudo”. Será que termos um “quase tudo”, nos fará felizes? Talvez não.
Então pensaremos no que nos faz feliz. Sabendo o que nos faz feliz, avaliamos o
que temos e tentamos completar o que começou, sendo “nada”, e passou agora a “quase
tudo”, e está a espera de poder ser “tudo”. Enquanto isso aguardamos num “quase,
quase tudo”.»
Um pequeno menino, que já sabia ler, encontrou esta folha
escrita num chão sujo e molhado, e com a sua curiosidade de ler, começou a
decifrar (através do que a professora lhe tinha ensinado na escola) cada
palavra, de cada frase do texto. Ele julgava não perceber nada, no entanto
perceberia tudo. Ele apercebeu-se que quando estava na escola, principalmente
no recreio, a brincar com os seus (verdadeiros) amigos, se sentia com tudo.
Então afirmaria bem alto: EU TENHO TUDO! No entanto, quando o sol se punha e a
lua aparecia, o pobre menino deixava esse tudo e ia para casa dos pais. Não
tinha o tudo que tinha tido á tarde, mas tinha outro tudo como os seus
brinquedos, a televisão, os pais, o resto da família e até os animais de
estimação. Mais uma vez ele podia afirmar: EU TENHO TUDO! Mas sabia que este
tudo seria diferente do tudo que teria de tarde. Deste modo o menino
apercebeu-se que nunca tinha "nada", tinha sempre "tudo", e sentia-se feliz.
No entanto, esse menino cresceu e tornou-se um de nós. Um
que não sabe se tem “tudo” ou “nada”. Ou um “quase tudo”. Ou um “quase, quase
tudo”. Vejamos, mas que isso importa? O que importa não é ter, é sentir
felicidade!

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